[642 coisas] O dia em que fiquei invisível

26.7.15

Sempre que me perguntavam qual super poder eu gostaria de ter, a resposta era a mesma: ficar invisível. Coisas que Harry Potter e a capa dele fazem com a gente. Já pensou? Se ninguém pudesse te ver? Entrar e sair de todos os lugares, inclusive os proibidos, sem ser notada, ir à um show sem pagar, entrar em todas as sessões do cinema, ficar observando a pessoa que você ama por um longo tempo... Tantas coisas eu faria que não saberia nem por onde começar. Mas sempre achei que isso seria impossível, ficar invisível. Mas um dia aconteceu. Fiquei. 

Percebi quando acordei e ninguém na casa notou minha presença. No começo foi estranho, mas quando meus pais começaram a falar que eu estava crescendo e precisava criar responsabilidades, a coisa foi ficando boa. Essa de ficar invisível é melhor do que ser uma mosca, não que eu já tenha sido um dia... ah, você me entendeu. Depois de ouvir um pouco mais sobre o que falavam de mim, peguei meu casaco e saí pra dar uma volta.

Primeiro que eu quase fui atropelada, achei que ao me ver o carro iria frear, mas lógico, ele não estava me vendo. Como seria socorrer uma pessoa invisível? Enterrá-la? Não me importa, vou me assegurar de não morrer hoje. Caminhei até o fim da rua e a padaria ainda não estava aberta, mas pela janelinha da casa modéstia nos fundos, vi o Sr. padeiro colocando o lanche na mochila do filho e se despedindo dele com um abraço. Estava pensando em pegar um doce escondido, mas não vou fazer isso. Ele é um grande homem e alguns trocados não me fazem falta.

Caminhei por todo o quarteirão, passei por lojas em liquidação, um carrinho de sorvete, moradores de rua e dúzias de estudantes indo pra escola com seus sapatos da moda e cabelos impecáveis. Lembro que quando eu era criança sempre quis ter aqueles tênis que piscam quando a gente anda e fiquei imaginando o quão seria engraçado ver os filhinhos de papai do meu colégio usando um. São tênis tão patéticos quanto eles, fazem a gente olhar pra baixo e não pra cima. Me permiti rir da cara deles sem ser vista. Impagável. 

Não haveria nada tão bom pra fazer naquela manhã, então também caminhei para o colégio. Nesse dia tive a certeza que o treinador pegava a professora de biologia atrás da quadra. Agora eu tenho uma excelente justificativa para não fazer educação física. Sempre sentei sozinha no refeitório e nesse dia não vi porque fazer diferente, nunca houve outro lugar pra mim senão na mesa próxima a janela. Gosto especialmente desta pela visão que tenho de toda a área, dá pra ver a mesa dos jogadores (a minha favorita), das patricinhas, os nerds, músicos e todas as outras "tribos". Prefiro os índios. Não sei dizer quantas pessoas ali saberiam meu nome ou se lembrariam que estudamos juntos. Podendo me enxergar ou não, eles nunca sequer olharam para mim. 

Não tive um dia extraordinário, mas mesmo assim, o achei super legal e com o tempo acredito que saberei arriscar coisas novas com minha invisibilidade. Me questionei se no dia seguinte eu continuaria invisível, fiquei chateada com a possibilidade disso não voltar a acontecer nunca mais e segui cabisbaixa pra casa. Novamente não fui notada e todos os pensamentos do dia tumultuaram minha cabeça na hora que me deitei. Nesse dia que vi de tudo e não fui vista, cheguei a muitas conclusões. Percebi que o meu super poder já me foi dado a muito tempo. Eu sou invisível. Um sorriso imediatamente se formou no meu rosto e logo fiquei grata por nunca ser notada pelos olhos de só quem ver a superfície.

Quando eu conhecer alguém de verdade, mas de verdade mesmo, a minha capa vai cair e pela primeira vez vou desejar que alguém enxergue em mim muito além do que se pode ver.

Que tal esses?

18 comentários

  1. Que texto maravilhoso *_*
    Simples e profundo.

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  2. Juliana, que texto maravilhoso, é você que escreve? Amei conhecer o seu cantinho, beijão!!

    Blog Delineado Clássico

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  3. Ju, o texto ficou lindo e eu já tive a sensação de estar invisível, mas minha capa sempre cai quando aparece uma tarefa/responsabilidade rs

    Beijo
    www.saidaminhalente.com

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    1. Obrigada Clayci, isso sempre acontece comigo também :(

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  4. Ju, este texto ficou maravilhoso!

    Beijos
    http://lovelyplacee.blogspot.com.br

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  5. Acho que ser invisível é o poder de muitos, inclusive o meu, mas até que gosto de poder me esconder das coisas e das pessoas. Seu texto ficou incrível ♥

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  6. Eu escrevi um texto sobre esse tema uma vez, ficou bem diferente acredite, ser invisível é natural por aqui no meu ser e como diria o o livro isso tem lá suas vantagens, o problema é que em certas horas temos que aparecer e para voltar para a invisibilidade não é fácil e deixa lá seus rastros, adorei o texto Ju, beijos

    Floreios ♥

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  7. Oiee
    Que texto maravilhoso. É estranho ser invisível, pois as vezes é bom, mas na maior parte acho que não. Você escreve muito bemmm *0*
    Beijinhos Screepeer
    http://screepeer.blogspot.com.br/

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  8. Parabéns escreve muito bem! Nossa que texto *-* Me identifiquei um pouco, as vezes sinto como se fosse invisível e nem sempre é muito bom, mas, de novo, adorei!!!

    http://putzisah.blogspot.com.br/

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    1. Obrigaaada Isah, que bom que você gostou :D

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- Anne Ferreira