O dia que eu entendi o mar

22.2.15


Por olhar tão fixamente o mar, meu pai me perguntou se estava triste. Engraçado como as pessoas sempre pensam isso de mim quando eu estou quieta. Geralmente estou pensando no 3G que não pega ou no texto da faculdade que preciso ler, mas especialmente nesse dia, eu estava quieta e feliz. Não feliz de escancarar os dentes em gargalhas estrondosas, mas feliz por dentro, como quem não quer que saibam. Nesse dia eu finalmente entendi o mar. 
...
 2014 
Quando eu entrei no mar, senti os sargaços prendendo nos meus pés e logo quis voltar pra areia quente, mas meu pai insistia que eu aproveitasse. "Deixe de besteira, minha filha", é o que ele sempre diz, mas eu nunca obedeço. A água é salgada demais, bem mais do que meus olhos míopes podem aguentar, o sol é muito quente e vai me deixar cinza, que é pior do que ficar vermelha. Melhor voltar pra tenda, tirar uma foto e fingir que esse lugar aqui ta demais.

Meu namorado, que agora é ex, chegou no dia seguinte pra comemorarmos o meu aniversário. Não que isso fizesse muito sentido no meio de tantas brigas, mas sempre fomos bons em fingir. As mudanças de 16 para os 17 anos aconteceram do dia pra noite, "A gente pode conversar sério agora?" "Não" "Você me ama?" "Eu disse que a gente não ia conversar sério". Insisti, mas ele estava cansado de perguntas ou de qualquer outra coisa séria. Terminamos três dias depois.
...

O mar está verde e azul o que eu não entendo como isso acontece, mas mesmo assim tenho vontade de ficar entre as duas cores. Hoje não é meu aniversário e não estou esperando por ninguém, apenas estou sentada debaixo desse sol tímido de fim de tarde que não queima o suficiente pra me deixar cinza, admirando a imensidão à minha frente.

Eu estava errada quando achei que voltaria ao mesmo mar. Não é o mesmo mar, não é a mesma Juliana. Foi aí que eu entendi o ir e vir daquelas ondas, porque ora ela nos levam pra frente, ora pra trás, porque nos afogam e nos salvam. Cada gota é nova e nos faz novos todas as vezes que nos tocam. 

Fora desse mar, haviam sargaços que me prendiam os pés e uma água salgada que me impedia de enxergar . Eles tinham nomes próprios e um jeito próprio de me afogar. Mas uma onda veio e os levou. Eles não existem mais. O mar e a vida são extremamente iguais e metafóricos e é confortante saber que ambos já não são os mesmos. Tudo é passageiro e a onda que molha os meus olhos é a mesma que refresca todo o meu corpo. Não há do que reclamar. 

"Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas já serão outras."

É isso. 

Que tal esses?

6 comentários

  1. Ameeei, achei profundo, como o mar.. Lindas palavras, amiga, fico feliz também por saber que vc ta feliz :P Isso que importa, tá feliz não pelo que a gente tem, mas pelo que nós somos ou pelo que nos tornamos, como evoluímos. Jajá tu faz 18 <3

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    1. Lindas palavras!! Feliz por ter quase 18 anos e estar feliz haha

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  2. Heráclito nas veias - "Nada é permanente, exceto a mudança". E sim, lindo o texto, lindo o blog!

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    1. Siiim Duanne! Heráclito está sendo muito inspirador pra mim, Parmênides não ta com nada. Obrigada pelo carinho :*

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  3. Que texto maravilhoso, incrível, delicioso e, ao mesmo tempo, tão real!! Eu entendo TANTO o que sentiu/sente, sou exatamente da mesma forma. A cada cinco minutos alguém (para ser mais precisa, alguém que conheça minha história) pergunta como estou me sentindo, se estou triste, etc. E sobre o relacionamento: servi em um retiro ano passado e me declarei na frente de todas as 200 pessoas conhecidas, falando o quanto eu amava meu namorado e que hoje estávamos completando um ano. Era tudo lindo, mas ele mudou do dia pra noite. Oito dias depois terminou comigo, começou a fazer um monte de brincadeiras fúteis com meninas, voltou a namorar uma ex dele, terminaram o namoro, gostou de mais trinta meninas, isso tudo em um ano... e como somos do mesmo grupo, acompanho tudo até hoje (mas estou pensando em mudar de grupo, pra ver se isso melhora).
    Mas enfim, como diz John Green, "o mundo não é uma fábrica de realização de desejos", e tem momentos que nos sentimos tão pequenas, que só repousando no colo de Jesus e Maria que isso passa.
    Abraços! 48janeiros

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    1. Nossa, histórias iguais! É triste, mas infelizmente pode acontecer com qualquer pessoa e faz parte da vida, quando rezamos "livrai-nos do mal", Deus escuta e nos livra mesmo e por vezes nem entendemos, mas está aconecendo tudo conforme da vontade de Deus

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"Devemos sempre acreditar que, por mais difícil que seja, lutar por aquilo que queremos não é perda de tempo."

- Anne Ferreira